Artista moderno
Eu sou um artista visual, registro momentos, pinto cores e crio histórias

Eu sempre fui um apaixonado por fotografia. Aos 20 anos, já repórter de texto da revista Veja, eu queria mesmo era ser fotógrafo de moda. Meu ídolo era o Antônio Guerreiro, que naquele momento, 1970, promovia uma revolução na revista “Setenta”, uma feminina da editora Abril. Durante muitos anos tive laboratório em casa, onde eu próprio revelava os filmes e copiava as fotos — trabalho de que me orgulho, porque essas cópias permanecem perfeitas até hoje.



O meu olho gosta do flagrante, do impacto
O meu olho gosta do flagrante, do impacto, da leitura imediata da cena, e não poderia ser de outro jeito depois de tantos anos trabalhando como editor, escolhendo fotos para publicar nos jornais. Mas não só. Se o meu primeiro ídolo foi Cartier-Bresson, fotojornalista, o mais recente deles é Saul Leiter, alguém que se interessa principalmente pelo impacto das cores na imagem, um gênio capaz de realizar coisas lindas apenas com um punhado de pingos de chuva borrando de abstrações coloridas o para-brisa do carro. Millôr Fernandes, quando assinava duas páginas semanais de humor e filosofia na revista Veja, botava embaixo de seu nome — “finalmente um escritor sem estilo”. Admiro mestres como Josef Koudelka, William Eggleston, Martin Parr, todos reconhecíveis pela marca personalíssima em cada clique.
Eu gosto de fazer fotos que tenham humor, limpeza gráfica, surpresa no flagrante e contenham uma história, ou deem elementos para que o espectador invente uma. Ninguém se preocupa com essas coisas quando está fotografando porque é automático que elas apareçam. Todos acabamos tendo um estilo — até o Millôr. Não dá para inventar outra personalidade visual, por mais que eu inveje o olhar poético de um Walter Firmo ou dramático de um Sebastião Salgado. Mas definitivamente sou um fotógrafo de rua, um cronista narrando o mundo através de imagens e tentando flagrar nelas algum mistério, alguma coisa mágica e imperceptível que leve beleza a quem vê.
Legítimo carioca nascido em 19 de agosto de 1950
Joaquim Ferreira dos Santos é um legítimo carioca nascido em 19 de agosto de 1950, e por muitas décadas foi um repórter de comportamento e cultura que rodou as principais redações do país, como Veja, Jornal do Brasil e O Globo, entre outras. Se você estranhar a familiaridade dele com a boemia do Rio ou a cobertura de eventos internacionais, saiba que o moço participou até da cobertura de diversas Copas do Mundo — um legítimo repórter-viajante que, ironicamente, se definiria mais tarde como um “Repórter de Cidade”, escrevendo sobre “o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio”.
Mas é na crônica que o “saco de gatos” de Joaquim (sua autodefinição para a mistura de estilos) realmente brilha. Dono de um estilo inconfundível, ele trocou as reportagens clássicas pela leveza das crônicas-reportagens, transformando a vida cotidiana em literatura. Foi essa observação acurada da vida urbana que o fez organizar a aclamada coletânea As cem melhores crônicas brasileiras e publicar clássicos do gênero, como Feliz 1958 — O ano que não devia acabar.
Entre uma crônica e outra, Joaquim também provou ser um biógrafo talentoso, responsável por revirar a vida de figuras icônicas da cultura brasileira. Assinam a sua pena as biografias do cronista/compositor Antônio Maria (Um homem chamado Maria) e da eterna musa da contracultura, Leila Diniz (Uma revolução na praia). Além disso, ele não se contentou em apenas relatar a vida alheia: em 2017, levou para casa o prestigioso Prêmio Jabuti pelo livro de crônicas Enquanto houver champanhe, há esperança, biografia de Zózimo Barroso do Amaral.
Agora, o cronista que transformava o asfalto do Rio em texto decide trocar a máquina de escrever pela máquina fotográfica. A paixão pela cidade, que o levou a ser colunista do Segundo Caderno d’O Globo, continua viva, mas agora capturada pela lente. Não espere cliques comportados: o olhar de “Repórter de Cidade” que já foi um “saco de gatos” na escrita certamente trará o bom humor, a sagacidade e a poesia das suas crônicas para a sua nova arte.